A Febre Amarela e as Cidades Brasileiras

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Dr-Joao-Regis
Dr. João Régis

 

Desde as campanhas coordenadas pelos sanitaristas: Emílio Ribas em 1901 na cidade de São Paulo e Oswaldo Cruz no Rio de Janeiro em 1903 combatendo o Aedes aegypti (ciclo urbano), cuja estratégia consistia na destruição dos reservatórios domésticos de água, criadouro natural dos insetos, não corríamos tanto risco, como agora, de voltarmos no Brasil a uma situação semelhante de Febre Amarela urbana. Condição inexistente no país, até hoje, 75 anos decorridos da extinção do último foco urbano da doença em 1942 e da eliminação do Aedes aegypti em 1955 na cidade de Sena Madureira no Acre.

Pela mesma estratégia utilizadas nas duas grandes cidades citadas e desenvolvida no restante do país, persistiu a partir daí apenas focos na selva(ciclo silvestre), pelo vírus introduzido na região de matas pelo homem doente, picado, principalmente por insetos do gênero Sabethes e Hemagogus que habitam as copas das árvores, capazes de infectar macacos e o próprio homem sadio que por aí circula. A doença foi introduzida no país logo após seu descobrimento, através dos navios negreiros que trouxeram da África os primeiros doentes e o inseto de hábitos urbanos, denominado Aedes aegypti, capaz já em 1685 de produzir a primeira epidemia, em Recife. Daí em diante as epidemias foram se sucedendo nas cidades de toda costa brasileira, do Amazonas ao Rio Grande do Sul, principalmente com o incremento da navegação em nossos portos, entre 1800 a 1900.

A doença atinge cerca de 200.000 pessoas a cada ano, com 30.000 mortes, 90% delas na África, além de sua existência também no Caribe e América do Sul. A Febre Amarela pode evoluir em 3 períodos: o infeccioso, mais comum(85%dos casos), com febre, dores pelo corpo e vômitos por 2 ou 3 dias, ocorrendo a cura; o de remissão de 1 a 2 dias sem sintomas; seguindo-se em aproximadamente 15% dos casos o toxêmico, em torno de 5 dias, com aproximadamente 50% de letalidade, acrescentando-se aos sintomas infecciosos iniciais, geralmente insuficiência hepática com hemorragias e icterícia, e insuficiência renal com redução ou interrupção da diurese.

Desde 1976 com a reintrodução do Aedes aegypti em nosso território pela cidade de Salvador, voltamos a temer pelo caminho inverso da doença, voltando da selva onde existe(ciclo silvestre), para nossas cidades(ciclo urbano), principalmente pela precariedade da situação sanitária do país em relação ao saneamento e tratamento do lixo, facilitando a circulação na atualidade do Aedes aegypti em todos os estados do país, envolvendo 90% das cidades , produzindo grandes epidemias, repetidas a curtos intervalos, de Dengue, Dengue Hemorrágico, há mais de 35 anos e recentes epidemias de Zika e Chicungunya, há pouco mais de 2 anos, com as graves consequências de que temos tomado conhecimento.

Se não bastasse tudo isso, a partir de 1986 foi identificado no Brasil outro mosquito, semelhante ao anterior, o Aedes albopictus, que em 1998 se espalhava por 13 estados e 1400 municípios, atingindo em 2014, 24 estados, livres apenas três pequenos (Acre, Amapá e Sergipe), com grande difusão no sudeste, atual foco de Febre Amarela, em zonas urbanas, suburbanas, rurais e silvestres, temendo-se que ele a qualquer momento venha a fazer a ponte entre zonas silvestres e rurais epidêmicas com os centros urbanos. Tanto o Aedes aegypti como o Aedes albopictus, na África, são responsabilizados pela transmissão da Febre Amarela nas cidades, picando o homem contaminado e transmitindo ao homem sadio mantendo o ciclo urbano da doença.

O país vive neste início de 2017 o maior surto de Febre Amarela silvestre desde o início do registro dos casos em 1980, somente em janeiro aproximadamente 700 casos investigados, 151 confirmados com 54 óbitos, 48 em Minas, 3 em São Paulo e 3 no Espírito Santo, além dos casos estudados em Tocantins e Bahia com possibilidades do aumento significativo de casos até maio, período de chuvas na região. Até então o maior surto foi o do ano 2000, com 87 casos e 39 mortes.

Como aconteceu a partir de 2007 uma expansão da zona endêmica da doença a partir da Região Amazônica, estendendo-se do centro-oeste em direção leste sul, atingindo estados do sudeste e sul, como Paraná e Rio Grande do Sul, principalmente em áreas de mata atlântica e como a cobertura vacinal em zona endêmica foi considerada baixa, em torno de 60 % das pessoas que deviam ser vacinadas, outros estados podem ser atingidos na atual epidemia. A partir de 1937 conseguimos produzir uma vacina contra a doença, uma das mais eficientes entre todas, de vírus vivos atenuados, capaz de proteger 95 a 98% dos vacinados, com reações locais, cefaleia e dores musculares discretas em até 10% dos casos e reações mais graves: alérgicas severas; agressão pelo vírus vacinal ao sistema nervoso central e outras vísceras ocorrendo rarissimamente.

No momento o Ministério da Saúde, mesmo durante esta grande epidemia entre humanos e epizootia entre macacos, recomenda apenas a vacinação nas regiões acometidas, a primeira dose aos 6 ou 9 meses de idade, com um reforço aos 4 anos e a partir daí nos não vacinados anteriormente, uma dose com reforço 10 anos após, evitando-se o uso em pessoas com alteração imunológica e em mulheres grávidas. O grande número de cidades com a presença do Aedes aegypti, a grande dispersão do Aedes albopictus nas regiões urbanas , suburbanas, rurais e silvestres, a grande circulação de pessoas do campo para as cidades e vice versa, a expansão da área endêmica da doença nos últimos anos, culminando coma maior epidemia de Febre Amarela silvestre entre humanos e macacos no Brasil nas últimas décadas, além da utilização da vacina de Febre Amarela na rotina de todos os seus habitantes da grande maioria dos países que convivem como nós com a doença, na África , Caribe e América do Sul, certamente forçará o Ministério da Saúde a avaliar o custo benefício(reações x proteção), no sentido de inclui-la no calendário vacinal de rotina de todos os brasileiros a partir dos nove meses de idade.

João Regis. Médico. Membro da Academia Brasileira de Pediatria

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CICLOS DA INFECTOLOGIA NO CONTEXTO DA MEDICINA BRASILEIRA E O DESPERTAR DA INFECTOLOGIA PEDIÁTRICA

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edward tonelli

Dr. Edward Tonelli

Preâmbulo

Foi com satisfação que recebi o comunicado a respeito da homenagem que hoje recebo, por meio do Dr. Aroldo Prohmann de Carvalho, presidente do Departamento de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria. Acredito que essa homenagem se refere ao conjunto da obra, depois de um trabalho contínuo por cerca de 46 anos, na pediatria e na infectologia. Minha caminhada pelas trilhas da infectologia teve início nos meados dos anos sessenta, quando me formei em medicina, em 1964. Ontem mesmo, minha turma foi homenageada, pela manhã, na FMUFMG, e à noite, na AMMG, pelo nosso jubileu de ouro, ou seja, pelos cinquenta anos de formatura.

Tendo em vista a particularidade dessa homenagem, farei, em certos momentos, considerações sobre as pesquisas que realizei e publiquei, como pediatra e infectologista, durante vários anos que antecederam o 1º Congresso Brasileiro de Infectologia Pediátrica da SBP, em outubro/1978, RJ, portanto, alguns anos antes do despertar da infectologia pediátrica no país.

Vejamos, a seguir, uma introdução aos ciclos da infectologia brasileira, com menção aos primeiros livros de medicina do Brasil.

INTRODUÇÃO

Interessante lembrar que desde tempos remotos, há registros frequentes da ocorrência de graves infecções, verdadeiros flagelos da humanidade, tais como: hanseníase, tuberculose, peste, varíola, cólera, tifo exantemático, sarampo, poliomielite, gripes espanhola, asiática e suína, AIDS, dengue e, mais recentemente, infecção pelo vírus Ebola. Muitos desses quadros mórbidos foram, durante séculos, os grandes acontecimentos da medicina. Basta lembrar a epidemia de peste, na idade média, sobretudo no período de 1347 a 1352, que dizimou cerca de 1/3 da população em vários países da Europa, e a epidemia de meningite meningocócica, no Brasil, no período de 1971 a 1975, uma das maiores no gênero, em todo o mundo.

Fenômeno semelhante ocorreu em nosso país, nas primeiras décadas após seu descobrimento, quando epidemias de bexiga (varíola) e de sarampo dizimaram importantes contingentes da população indígena Daí a razão de serem da área da infectologia os dois primeiros livros de medicina brasileiros, de autores portugueses que trabalhavam em Pernambuco. O primeiro livro, “Tratado único sobre bexigas e sarampo”, de 1683, foi do médico Simão Pinheiro Mourão, cristão-novo, que sofreu punições da inquisição portuguesa. O segundo, “Tratado único sobre a pestilência constitucional em Pernambuco”, sobre febre amarela, de 1694, teve ampla repercussão, de autoria de João Ferreira da Rosa.

O 3º livro, denominado Erário Mineral, de 1735, é um excelente livro de medicina geral, publicado pelo médico português, Luiz Gomes Ferreira, que trabalhou na região das cidades históricas de Minas Gerais, importante província mineral, na década de 1730, em pleno ciclo do ouro. Esse livro foi recentemente reeditado pelo Centro de Memória da Medicina da FMUFMG e pela Fundação João Pinheiro(MG). No conteúdo desse precioso livro de Clínica Geral( 548 p.) e de excelente didática, há vários temas da infectologia, sobretudo da patologia tropical e infecciosa, como capítulos sobre animais peçonhentos, infecções da pele, e doenças parasitárias como malária e parasitoses diversas, dentre outros. O referido livro só foi publicado após passar pelo crivo de 10 licenças( pareceres) de membros da inquisição portuguesa.

A seguir, a abordagem inédita e original sobre os ciclos da infectologia brasileira, descritos aqui com base em uma visão histórica e em contribuição de cunho pessoal. Esses ciclos se confundem muitas vezes com importantes fases da medicina brasileira.

CICLOS DA INFECTOLOGIA NO CONTEXTO DA MEDICINA BRASILEIRA

A primeira fase ou ciclo da incipiente infectologia/medicina brasileira se prolongou durante o período de 1683, quando ocorreu a publicação do primeiro

livro já citado (Tratado único sobre bexiga e sarampo), até a vinda da família real para o Brasil, em 1808, quando foram fundadas as duas primeiras escolas de medicina no Brasil, a primeira na Bahia, em 18 de fevereiro de 1808 e, a segunda, no Rio de Janeiro, em 5 de novembro do mesmo ano. Portanto, a partir de então, ou seja, de 1808 até meados de 1920, transcorre o segundo ciclo da infectologia brasileira, com participação ativa das escolas médicas e, sobretudo, dos institutos de pesquisa, (Adolfo Luz, Butantan, Manguinhos, Ezequiel Dias, dentre outros) fundados no final do século XIX e início do século XX. Ocorreram, nessa ocasião, descobertas brilhantes em nosso país, como o agente da filariose, a Wulchereria bancrofti , por Otto Wulcherer, em 1868, na Bahia, bem como a descoberta da esquistossomose mansoni e de seu agente, o S. mansoni , em 1908 e, da cercaria, em 1912, por Pirajá da Silva, também na Bahia.

A seguir, a notável e singular descoberta da doença de Chagas, pelo genial pesquisador mineiro, Carlos Justiniano Ribeiro Chagas, em Lassance, Minas Gerais, em 1909. Na história da medicina, Carlos Chagas foi o pesquisador que maior contribuição trouxe ao conhecimento de uma doença, quando descreveu o agente etiológico, (Trypanosoma cruzzi), o vetor (P. megistus), os reservatórios naturais, a epidemiologia, os quadros clínicos das fases aguda e crônica, os achados experimentais, histopatológico, bem como o diagnóstico e evolução. Foram, também, do primeiro decêndio do século XX, a vitoriosa campanha de Osvaldo Cruz contra a febre amarela e a campanha da vacinação contra a varíola. Nas décadas seguintes, 21 unidades da FIOCRUZ foram implantadas, sendo 11 no Rio de Janeiro e 10 em estados das regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Sul, contribuindo sobremaneira com a investigação científica, sobretudo na área da infectologia. Destaques parra as unidades técnico-cientificas na Amazônia, Pernambuco, Bahia, Minas e Paraná, dentre outras.Convém lembrar, ainda, a expressiva contribuição à pesquisa biomédica e à saúde pública dos pesquisadores do Instituto Evandro Chagas(MS), fundado no estado do Pará, em 1936.

O terceiro ciclo da infectologia brasileira surge, a partir de 1940, quando cresce nas faculdades a importância das disciplinas e dos institutos de Medicina Tropical( SP, GO) e dos serviços de anatomia patológica, culminando com a fundação da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, em Juiz de Fora, em janeiro de 1965, onde foi realizado o primeiro Congresso dessa Sociedade. Foi quando assinei, ao lado de outros congressistas, o livro de fundação dessa Sociedade e quando, como recém-formado, apresentei vários trabalhos sobre esquistossomose aguda e toxêmica na infância, doença, até então, desconhecida. A escola mineira com as várias publicações sobre a esquistossomose aguda. (Neves, Raso, Celso Afonso, dentre outros, em adultos, e Tonelli na pediatria, ) contribuiu sobremaneira, nas décadas de 70 e 80, com o melhor conhecimento da história natural da endemia.

Participei, ativamente, com apresentação de trabalhos, nos sete primeiros Congressos da Soc. Bras. Med. Tropical, com várias pesquisas sobre testes de drogas para esquistossomose na infância e com estudos pioneiros sobre a endoscopia, raspagem e biópsia retais na esquistossomose aguda e toxêmica. Naquela ocasião, a esquistossomose era sério problema de saúde pública e não existia droga eficaz. Tive a enorme satisfação de experimentar, com relativo sucesso, alguns antimoniais e o hycanthone, via parenteral, e, com alta eficácia, as novas drogas por via oral – niridazol e oxamniquine – sendo a última em dose única ou fracionada, nas fases aguda e crônica da doença, inclusive na forma hepatoesplênica. Adotei, como critério de cura, além do exame parasitológico seriado das fezes, outros exames realizados por mim durante anos, como a apurada técnica dos oogramas seriados, e a endoscopia, raspagem e biópsia retais (artigos resumidos e comentados no Trop. Dis. Bull, London, no período de 1966 a 1970)

Nos congressos dessa Sociedade, onde havia predomínio, até então, de trabalhos sobre doenças classicamente consideradas tropicais e em adultos, apresentei, como pediatra e infectologista, os primeiros trabalhos sobre: meningites bacterianas na infância, estudo da letalidade em doenças infecciosas, série de enterobacteriose septicêmica prolongada, 1ª epidemia de poliomielite (150 casos, ) em Belo Horizonte, com tipagem do vírus, evolução fisioterápica na poliomielite, estudo radiológico do pulmão no sarampo e na coqueluche, série histórica de 2494 casos de varíola, 100 casos de difteria, exames prioritários para o diagnóstico da esquistossomose aguda, estudo eletrocardiográfico seriado na difteria, e na terapêutica antimonial anti-esquistossomótica, teste de drogas esquistossomicidas nas fases aguda e crônica da endemia, inclusive na forma hepatoesplênica..

Importantes, também, nessa ocasião, foi a participação de clínicos, pediatras e pesquisadores que militavam nos institutos de medicina tropical, nos hospitais de pediatria geral e nos hospitais de doenças transmissíveis, em vários estados do país.

Gostaria de frisar que nos primeiros anos de formado, ou seja, no período de 1965 a 1970 já contava com oito trabalhos publicados, selecionados e comentados, no então livro do ano das doenças infecciosas e tropicais, ou seja, no conceituado Tropical Diseases Bulletin of London. Esta revista era, na ocasião, o ancoradouro natural das boas publicações da área da infectologia.

Participei do Departamento de Infectologia da SBP, desde a segunda metade dos anos 70, quando foi programado o 1º Congresso Brasileiro de Infectologia Pediátrica, no Rio de Janeiro, em 1978, tendo sido presidente de honra, Prof. Álvaro Aguiar, e secretário, o colega e amigo, Reinaldo M. Martins. O 2º Congresso foi realizado em São Paulo, em 1980, sob a presidência do colega Calil Farhat, tendo sido secretário, o amigo Eduardo Carvalho. Já o 3º congresso , foi realizado em Belo Horizonte, sob minha presidência em 1982, tendo sido secretário, o colega, amigo e e ex-orientando, Lincoln Freire. Foi quando tive a honra de conhecer o Prof. Johnas Salk, em sua primeira visita ao Brasil, quando, surpreendentemente, ele se mostrou vivamente interessado em algumas doenças tropicais e em conhecer resultados de nossos estudos sobre a interação entre S. mansoni e enterobactérias – enterobacteriose septcêmica prolongada – um dos focos de nossas pesquisas- exemplo típico, intrigante e mais expressivo de uma interação infecciosa, ou seja, de uma coinfecção, muito bem estudada em Minas e na Bahia.

Durante muitos anos, portanto, apresentei meus trabalhos nos Congressos Brasileiros de Pediatria e nos Congressos da Soc. Bras. de Medicina Tropical, pois não tínhamos, ainda, os Congressos de Infectologia Pediátrica, que só surgiram anos depois, em 1978.

A partir de então, ou seja, a partir de 1978, passamos a apresentar nossos trabalhos em vários congressos, sobretudo nos Congressos Brasileiros de Pediatria e de Infectologia Pediátrica, e assim procedemos por cerca de 25 anos. Dentre os vários trabalhos apresentados nesses congressos, destaca-se aquele referente à nossa maior casuística mundial sobre esquistossomose aguda – 200 casos. Mencionamos, também, outros trabalhos como a série de infecções recorrentes ligadas às imunodeficiências, calazar na infância, estudos pioneiros sobre a fase de transição da esquistossomose mansoni, aspectos perinatais da toxoplasmose e da rubéola, série sobre toxoplasmose congênita, série de “Cor pulmonale” crônico esquistossomotico, novos antimicrobianos, deficiência de subclasses de IgG: – “Dosagem seriada de IgG e subclasses nas infeccões recorrentes da hipogamaglobulinemia comum variável – Contribuição à terapêutica com imunoglobulinas venosas”. Rev Med Minas Gerais, 4::219-26 1995”. Nesta ocasião, fazíamos o atendimento especial às crianças com infecções recorrentes ligadas às imunodeficiências, quando discutíamos com os residentes e alunos da graduação os casos e temas de imunologia pediátrica. Foi, quando surgiu o embrião da imunologia pediátrica no Depto de Pediatria da UFMG, hoje sob a direção do Prof.Titular, Jorge Andrade Pinto, ex-estagiário da infectologia, sob orientação, na ocasião, da Professora Gláucia M.Q. Andrade.

No inicio da década de 1990, orientamos um grupo de mães, na casa do jornalista de Belo Horizonte e perante a imprensa, a criar a Associação das Mâes de Filhos Portadores de Imunodeficiências Humorais, da qual fui o assessor científico durante alguns anos. Na ocasião, defendíamos ao lado das mães, o que veio a ocorrer, ou seja, o fornecimento, pelo SUS, de imunoglobulinas venosas aos pacientes, uma vez que se tratava de medicamento de uso mensal permanente e de custo elevado.

Publiquei, em 1972, o primeiro artigo completo da literatura, sobre Fase Aguda da Esquistossomose Mansoni, por sugestão do corpo editorial da revista (Rev. Soc. Bras Med Tropical, RJ, 6: 299-399,1972), com base na nossa casuística de 200 casos, o que nos permitiu estabelecer bases teóricas para a conceituação do tema. Uniformizei os conceitos, pois havia, na ocasião, certas divergências entre os grupos de pesquisadores da FMUFMG, instituição onde o assunto era pesquisado. Na mesma ocasião, publiquei no Jornal de Pediatra, RJ, os dois primeiros artigos (1973 e 1975 ) da literatura pediátrica sobre o tema “Salmonelose Septicêmica Prolongada ” e, outro artigo (1975), também pioneiro na pediatria, com o título: Considrerações sobre a fase aguda da esquistossomose mansoni: abdome agudo e polineurite na esquistossomose toxêmica”.

DESPERTAR DA INFECTOLOGIA PEDIÁTRICA

Portanto, a partir de outubro 1978, quando ocorreu o 1º Congresso. Brasileiro de Infectologia Pediátrica, emergiu, a nosso ver, o 4º ciclo da infectologia brasileira, caracterizada, pelo surgimento da infectologia pediátrica, com toda sua robustez, como forte polo da pesquisa e da disseminação da informação científica. Vários livros surgiram, a partir de meados da década de 1980, quando publicamos, em 1987, o primeiro livro de doenças infecciosas na infância, com participação predominante de pediatras infectologistas e de pediatras e pesquisadores de todo país, em dois volumes. A 2ª edição- Doenças Infecciosas na Infância e Adolescência – foi publicada em 2000, também em 2 vols, com 203 colaboradores de todo o país. Este livro foi em coedição com a participação ativa do meu grande amigo, ex-aluno e colega Lincoln Freire, de saudosa memória. O caro amigo prof. Calil e sua equipe, publicaram, também, nessa ocasião, suas primeiras edições do conceituado livro – “Infectologia Pediátrica”. Saudades, também, dos caríssimos colegas Calil e Eduardo Carvalho.

Gostaria de mencionar, a seguir, os nomes de vários infectologistas e de alguns pediatras, que deixaram registros importantes em suas atividades clínicas, pois contribuíram com a evolução da infectologia pediátrica em nosso país. Eis uma relação , atéo final do primeiro decêndio do século atual.

MG – Edward Tonelli, Lincoln Marcelo S. Freire, Heliane B. M. Freire, Gláucia Manzan .Q. Andrade, Humberto Oliveria Ferreira, Maria Aparecida Martins, Andréia Lucchesi, Lorenza Angelini de Oliveira , Nelson R.L.L. Martins, Fernando Boucinhas, Geraldo Ribeiro, Inacio R. de Caravalho,. . SP – Calil K. Farhat, Eduardo S. Carvalho, Regina Célia M. Succi, Luiza Helena F. Carvalho, Heloisa Helena de Souza Marques, Helena Sato, Eitan Berezin, Marisa M.M. Pinhata e Maria Célia Cervi. RJ. Reinaldo Menezes Martins, Alvaro Aguiar, Sebastião de Barros, Myrtes A. Gonzaga, Itamara Meilman e Marisa Aloé. ES – Ronaldo E. Martins, Alvaro Lima Machado. AM – Consuelo Silva de Oliveira. BA – Hagamenon Rodrigues Silva, Cristiana Nascimento-Carvalho. PE- João de Melo Régis Filho, Ana Líria M. Pimentel, Maria Ângela W. Rocha. CE – Luiz Carlos Rey. G0 – Mariza Martins Avelino. DF – Dioclécio Campos Jr. SC – Aroldo Prohmann de Carvalho, Sônia Maria de Faria. PR – Eliane Maluf. RS – Gentil Boneti, Ernane Miura, dentre outros. Atualmente, já há outros colegas dedicados à infectologia, aos quais desejo muito sucesso em suas atividades

A Sociedade Brasileira de Medicina Tropical sempre foi muito dinâmica, com seus congressos anuais, desde a sua fundação em seu 1º Congresso, em 1965, em Juiz de Fora(MG). Em agosto/2016, será realizado, em Alagoas, o 52º Congresso dessa vibrante Sociedade.

Gostaria de lembrar, ainda, que a Sociedade Brasileira de Infectologia foi criada em 1980 e que, desde então, vem organizando seus congressos regulares. A revista “The Bras. Journal of Infectious Diseases”, circula desde 1996.

Existem Outros setores organizados na área da infectologia no país, como o de Controle de Infecção e Epidemiologia Hospitalar, cujo XV Congresso será realizado em Belo Horizonte, em novembro de 2016.

Agradecimentos do fundo do coração à minha querida esposa Sônia, e aos nossos filhos Luciana, Henrique e Edward Jr, pelo estímulo e compreensão, que foram fundamentais ao nosso trabalho. Sempre foram muito solidários.

Meus agradecimentos especiais à Professora Glaucia M.Q.Andrade, Prof. Adjunto e doutora, nossa ex-orientanda e coordenadora do Setor de Infectologia Pediátrica da UFMG pela dedicação constante, à Prof. Regina Célia M. Succi, Prof. Associada e Livre-docente, Pediatria-UNIFESP, pelas gentis palavras, e, ao amigo e ex-orientando, Prof. Aroldo P. de Carvalho, Prof. Adjunto doutor, UFSC, pela saudação e encaminhamento dessa homenagem. Estendo meus agradecimentos ao Dr. Fabrizio Motta, presidente deste Congresso, pela gentil acolhida.

Concluindo, com base nesse breve histórico, pudemos verificar que a infectologia pediátrica brasileira, hoje no seu 18º congresso, encontra-se razoavelmente bem estruturada com seus vários centros por todo o país e com novos pesquisadores. Ela teve como berço os hospitais e serviços de pediatria, os centros de doenças transmissíveis, institutos de pesquisa, e, ainda, a medicina tropical , esta bem instalada em vários centros de pesquisa, e nas disciplinas de doenças tropicais e infecciosas das principais faculdades de medicina do país.

Finalizando, caro Aroldo e prezados colegas do Departamento de Infectologia da SBP, confesso que perpassam em minha mente belas recordações de tudo que eu disse, e que tenho inesquecíveis lembranças de nossa saudável convivência durante tantos anos. A todos os colegas, ex-orientandos, amigos e colaboradores, minha gratidão e o meu fraternal abraço.

*Prof. Emérito e Titular de Pediatria da UFMG. Ex-Presidente da Academia Brasileira de Pediatria. Membro da Academia Mineira de Medicina. Membro do Grupo Fundador da Academia Mineira de Pediatria. Membro do grupo fundador e ex-coordenador do Curso de Pós-graduação em Ciências da Saúde. Área de concentração em saúde da criança e do adolescente.Mestrado e Doutorado UFMG. Ex-Consultor do CNPq.

Gramado, Rio Grande do Sul, 17 de outubro de 2014.

A criança acima de tudo

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Dioclécio

A sociedade humana tornou-se presa fácil do desatino. Deixou-se contagiar pelos interesses menores que se contrapõem à sobrevivência do processo civilizatório. Os valores éticos e morais, que se anunciavam como virtudes indispensáveis à evolução da espécie animal a que pertencemos, desaparecem. Os componentes comportamentais que passaram a prevalecer mundo afora são o individualismo e o imediatismo. Logo, a falta de educação está sendo progressivamente globalizada.

Os resultados dessa grave decadência são nítidos. A paz é hoje um raquítico sonho e a violência uma poderosa realidade. Assaltos, roubos, chacinas, estupros, homicídios, delinquências diversas e virulentos distúrbios mentais são metástases do câncer maligno que afeta a humanidade, com o risco de levá-la à fase terminal de vida no planeta. A solução inadiável para evitar o trágico desfecho que se esboça é a mudança do modelo de sociedade. A encruzilhada está posta. A saída é única: uma educação de qualidade, fundada nos princípios morais e éticos a serem revigorados. Para tanto, o individualismo precisa ser desconstruído nas próximas gerações e o imediatismo não pode mais prosperar, sob pena de empurrar a tudo e a todos para o precipício.

E a medida mais eficaz para desencadear as transformações a serem promovidas é reverter o consumismo imposto à população que sobrevive, a duras penas, no planeta Terra. Significa desfazer o fascínio do ter a fim de que se recupere a benesse do ser. Para que tudo isso, de fato, aconteça, o valor da criança há de ser reconhecido. É inegociável. Se não for devidamente respeitado, a história da humanidade estará com os dias contados. Com efeito, a maior vítima desse catastrófico descalabro a que chegamos, sob a ilusão de discutível progresso, é o ser humano que vem ao mundo sem saber como nem porquê. Nasce e cresce definido como sujeito de direitos, mas, na verdade, não passa de mero objeto, acintosamente negligenciado, usado e abusado, à exaustão, pelos adultos.

A infância é a fase de vida dotada da mais alta capacidade cognitiva. Requer saúde plena, que supõe ambiente seguro, aconchegante e estimulante. A criança é quem mais perdeu com a desastrada metamorfose social que, nos tempos modernos, só faz reforçar a animalidade da espécie. A decomposição do núcleo familiar, base do regime econômico em vigor, ignora os ritos autênticos e insubstituíveis para o crescimento e desenvolvimento saudáveis, que só podem se dar na fase infantil da vida. A criança passou a ser literalmente depositada nas instituições que substituem o ninho de afeto materno e paterno em que deveria viver nos primeiros tempos de sua existência. Por outro lado, o adensamento demográfico das cidades roubou praticamente todos os espaços urbanos indispensáveis ao bem-estar físico, mental e social da infância.

Os novos seres humanos, ao deixarem o útero materno, passam a ser confinados em diminutos recintos que não lhes permitem a adequada expansão de sua criativa originalidade potencial. Não se deslocam caminhando ativamente para a escola, como ocorria nos velhos tempos. São hoje transportados em veículos automotores, dentro dos quais restam às vezes esquecidos e condenados à morte pelo mecanismo da insolação. Para moldar novas gerações nos desvarios do consumismo, de interesse puramente econômico, as empresas desrespeitam os seres pueris, convertendo-os em bebês ou crianças propaganda, cometendo, impunemente, incontestável forma de abuso, até mesmo de trabalho infantil. Ademais, longas horas em que são expostos ao mundo televisivo e eletrônico não deixam de ser um precoce condicionamento comportamental. São momentos marcados por imagens de todas as formas de violência, que incluem uso de bebidas alcoólicas e a erotização precoce, resultando em absurdo processo de banalização de práticas as mais condenáveis. A drástica redução da taxa de natalidade é outra característica do modelo econômico imediatista em vigor.

Se essa taxa não retornar ao nível minimamente indispensável à sobrevivência da espécie, a sociedade humana desaparecerá num futuro não muito distante. A educação de qualidade, sem vínculo com interesses materialistas, é, portanto, a saída para o renascimento da humanidade. Não deve ser assegurada apenas na escola nem exclusivamente a crianças e adolescentes. Vai muito além de meros sistemas pedagógicos. Há que ser também estendida à população adulta, por todos os meios possíveis, de forma ininterrupta, a fim de que as pessoas saibam viver em comunidade.

DIOCLÉCIO CAMPOS JÚNIOR

Médico, professor emérito da UnB, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, acadêmico titular da Academia Brasileira de Pediatria e membro da Diretoria Executiva do Global Pediatric Education Consortium (PEC). E-mail: dicamposjr@gmail.com

Fonte: Opinião – O Correiro Brasiliense – Publicado em 24/06/2016

 

 

Escolas Médicas

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edward tonelli

Boletim da UFMG

Artigo de Opinião por Dr. Edward Tonelli

Acesse: Escolas Médicas orig.Bol.ufmg 3005160001 (1)

Gripe/Influenza A (H1N)

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gripe

Não bastassem as dificuldades de toda ordem que se abatem sobre o Brasil, inclusive epidemias conjuntas de Dengue, Chikungunya e Zika, aparece de modo antecipado, o surto anual de Gripe com presença marcante do Vírus Influenza A (H1N1), que não predominava há alguns anos. Presente antes mesmo da vacinação regular de 30 de abril para grupos de risco: crianças de 6 meses a 5 anos, adultos acima de 60 anos, grávidas e puérperas de até 45 dias do parto, portadores de doenças crônicas, principalmente as que reduzem a imunidade, entre outras.

Este ano em nosso país o surto teve inicio mais cedo, a partir de fevereiro e março, predominando no sudeste: 80% dos casos graves, principalmente em São Paulo, 75 dos 115 óbitos do país, até o inicio de abril. Tenta-se explicar o ocorrido pela baixa cobertura vacinal do ano passado e contágio de turistas brasileiros no exterior, em Orlando, local da Disney com surto gripal recente.

A Gripe foi descrita pela primeira vez por Hipócrates, em uma epidemia “catarral” que atingiu Atenas em 412 a.c. Nos últimos 400 anos inúmeras epidemias assolaram o mundo, principalmente as pandemias(epidemias universais), todas de responsabilidade do Vírus Influenza A: a Gripe Espanhola de 1918 pelo A (H1N1), a maior da humanidade, atingindo metade da população da terra com 50 milhões de mortes; a Gripe Asiática de 1957/58 pelo A (H2N2) com 1 milhão de mortes; a Gripe de Hong-kong de 1968 pelo A(H3N2), também com um milhão e finalmente a primeira de nosso século em 2009 a Gripe A (Suína) de 2009, novamente pelo Vírus A(H1N1), com 203.000 mil mortes. Mais de 200 cepas de vírus são responsabilizados pela agressão ao nosso trato respiratório, ora produzindo quadros mais leves, os Resfriados, ora quadros mais sérios, conhecidos como Gripes, Síndromes Gripais (SG) ou Influenza- palavra italiana utilizada nos primórdios para atribuir a influência dos astros à origem da doença.

Nos Resfriados predominam a tosse e a coriza, com sintomas gerais ausentes ou mais discretos: febre e dores no corpo. As Gripes apresentam sintomas gerais acentuados como febre elevada e dores intensas pelo corpo, além do quadro respiratório descrito anteriormente que pode se agravar com cansaço e falta de ar, caracterizando a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), que sempre necessita cuidados médicos e o uso obrigatório do antiviral Oseltamir, com resultados evidentes, principalmente nas primeiras 72 horas do acometimento. O Oseltamir pode ser também utilizado preventivamente, com orientação médica, para grupos de risco de ser acometido pela SRAG. Todos os vírus que acometem a árvore respiratória em determinados momentos, são capazes, ora de produzir um simples resfriado, ora uma Gripe, embora os Resfriados sejam mais comumente produzidos pelos Rinovírus, Coronavirus, Vírus Sincicial Respiratório, Adenovírus, e Vírus Parainfluenza, e as Gripes pelos Vírus Influenza A, B e C, sendo o A, com mais de 10 sorotipos, o responsável pelo maior número de casos e os mais graves nas epidemias anuais por temporada(sazonais), ocorridas em todo o mundo.

As epidemias sazonais ocorrem anualmente em tempos distintos nos hemisférios norte e sul, nos meses de outono e inverno quando as pessoas ficam mais juntas em lugares fechados – Brasil, maio à julho- e tem atingido número atualmente mais reduzido de pessoas pelo uso de vacinas contra a doença, aplicada anualmente, pois anteriormente atingia de 5 a 15% da população mundial com 3 a 5 milhões de casos graves e de 250.000 a 500.000 mil mortes a cada ano. Esses surtos sazonais estão mais diretamente relacionados às pequenas mudanças genéticas ocorridas frequentemente nos Vírus Influenza, o que obriga a novas formulações das vacinas a cada ano nos dois hemisférios. Já as pandemias são resultantes de mudanças radicais do material genético viral, inclusive pela combinação do material de vários vírus circulantes- exemplo, humano acrescido do suíno- transformando os novos vírus em seres totalmente diferentes dos originários, com capacidade de disseminarem-se rapidamente por toda terra e tornarem-se potencialmente mais virulentos.

As vacinas dão proteção em torno de 60% e quando se consegue uma cobertura vacinal na população alvo em torno de 80%,com reações mínimas à sua aplicação, praticamente dor no local da injeção e um pouco de indisposição geral quando presentes, é capaz de reduzir de 32 a 45% o número de hospitalizações e de 39 a 75% a mortalidade global, embora proteja no máximo por um ano. Ela vem sendo aplicada no Brasil a cada doze meses desde 1999, nos primeiros 10 anos de seu uso somente para idosos e a partir daí até hoje para outros grupos de risco, sem contar ainda hoje com o devido reconhecimento da população para a gravidade da doença, o que tem dificultado boas coberturas vacinais. Temos em uso no momento duas vacinas, uma trivalente com antígenos de duas cepas do Influenza A, (H1N1) e (H3N2) e uma cepa do Influenza B e uma outra tetravalente com o acréscimo de mais uma cepa do Influenza B. Na atualidade dezenas de pesquisadores em todo o mundo buscam produzir uma vacina universal que possa proteger para qualquer tipo de Vírus Influenza, sem necessitar alterar sua composição frequentemente, tentando conseguir bons antígenos imunizantes de componentes fixos do vírus, diferentemente dos utilizados atualmente que se transformam rapidamente, exigindo novas vacinas a cada ano.

João Regis Médico Infectologista Membro Titular da Academia Brasileira de Pediatria joao_regis@bol.com.br

Leia a matéria completa em: 0520_01_OPI_12

Microcefalia e vacinas, uma falsa associação

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A internet e as redes sociais criaram muitos benefícios, como maior interatividade entre as pessoas e maiores possibilidades de trocas de informação em escala universal. A liberdade da internet permite que a circulação de opiniões ocorra livre de censura, o que é em princípio um bem. Mas, infelizmente, há alguns aspectos negativos, como a circulação de notícias falsas e opiniões fantasiosas. Quando se trata de vacinas, essas notícias falsas e fantasiosas podem gerar dúvidas, ansiedade e até mesmo fazer com que muitas pessoas deixem de vacinar seus filhos e de se vacinar.

Não há ação médica com melhores benefícios do que as vacinações. Graças a elas, estamos livres da varíola, estamos prestes a erradicar a poliomielite do mundo, a rubéola e a síndrome de rubéola congênita, lesão fetal grave causada pela rubéola na gestação, foram eliminadas das Américas, e doenças como difteria, tétano, sarampo, meningites por hemófilo, entre várias outras, tornaram-se raras.

Com a diminuição dessas doenças, muitos pais perderam o medo delas e tendem a relaxar sobre as vacinações. Isso é um erro grave, pois sem as vacinas as doenças voltarão, exceto quando erradicadas em todo o mundo, caso atualmente só aplicável à varíola.

As vacinas podem ser acompanhadas de reações ou eventos adversos, em geral de curta duração e benignos, como dor local e febre, mas a comparação com as doenças mostram que o benefício é imenso. Por outro lado, quando se vacinam milhões de pessoas, outras doenças podem acontecer após as vacinações, pois obviamente vacinas não protegem contra todas as doenças. Associação temporal não é sinônimo de associação causal. Essa análise de causalidade é feita em estudos clínicos, estudos de farmacovigilância, e discussões por grupos de especialistas.

O aumento de microcefalia observado inicialmente no Nordeste do Brasil, e depois em outros estados, deu margem à suposição no público leigo de que as vacinas aplicadas na gestação poderiam causar a microcefalia.

A influenza na gravidez é mais grave, e o aumento da coqueluche em recém-nascidos e crianças nos primeiros meses de vida, levaram à recomendação de vacinar

contra influenza e coqueluche na gestação. O Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (http://www.cdc.gov/) tem vasta bibliografia e informação sobre a aplicação das vacinas de influenza e dTpa (tríplice acelular tipo adulto contra difteria, tétano e coqueluche) na gravidez, mostrando a sua importância e segurança. A Organização Mundial de Saúde também recomenda a vacina de influenza na gestação.

A contraindicação à vacina de rubéola (isto é, dupla viral sarampo-rubéola e tríplice viral sarampo-caxumba-rubéola) na gestação deve-se ao fato de que são vacinas vivas, e assim, por medida prudencial e risco teórico, aconselha-se não usá-las na gravidez. O Brasil, em virtude de suas campanhas de vacinação em massa, é um dos países que tem mais experiência no assunto, com vários estudos publicados em revistas internacionais indexadas. A aplicação inadvertida das vacinas contendo o componente rubéola, ou de quaisquer outras, em mulheres grávidas, não acarretou consequências nocivas para o feto. À mesma conclusão chegaram a Organização Pan-Americana da Saúde, analisando os dados da América Latina, e a Organização Mundial de Saúde, analisando os dados de todo o mundo.

Há várias causas de microcefalia, mas muitas evidências apontam o vírus Zika como o responsável pelo aumento de casos no Brasil. Numa série de 35 casos investigados, todos foram negativos para agentes microbianos que podem causar infecção congênita, inclusive rubéola. O vírus Zika foi isolado do líquido amniótico de dois fetos diagnosticados com microcefalia antes do nascimento, e o material genético do vírus Zika foi identificado em vários órgãos, inclusive cérebro, de uma terceira criança, que morreu logo após o nascimento.

Poderei enviar aos interessados a literatura científica que dá suporte às afirmativas acima.

Com a intenção de tornar acessíveis ao público as informações mais atuais sobre vacinas, e principalmente tirar suas dúvidas, criei o blog “Tire Suas Dúvidas Sobre Vacinas”. Terei prazer em responder aos questionamentos e dúvidas.

Reinaldo de Menezes Martins

Membro Titular da Academia Brasileira de Pediatria

Residência de 3 anos e valorização da pediatria

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Eduardo da Silva Vaz

Presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP)

Dentre as notícias de 2013 que temos para comemorar, está a aprovação, ocorrida em julho, da ampliação do tempo de Residência em Pediatria para três anos, com a respectiva atualização do conteúdo. A decisão, da plenária da Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM), atende pleito já de alguns anos da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e está em consonância com a proposta elaborada pelo Global Pediatric Education Consortium (GPEC) – aliança formada por quase 50 entidades de vários países, entre as quais a SBP. Trata-se de uma formação mais abrangente, que inclui a definição das competências e habilidades necessárias para o exercício da pediatra no século XXI, dos objetivos de cada ano, e das condições necessárias para alcançá-los.

No novo currículo, a saúde mental passa a ser conteúdo explícito e obrigatório, a adolescência tem sua carga horária muito ampliada, as doenças crônicas são incluídas também obrigatoriamente. Outra mudança ocorre na formação em emergência, com o trauma incluído também como tema obrigatório. Treinamentos como em neonatologia ganham mais tempo. A puericultura é aprofundada, com ênfase na influência do meio ambiente no crescimento e no desenvolvimento com vistas à saúde do adulto. A formulação abrange a atenção primária, secundária e terciária à saúde da criança e do adolescente, com uma carga horária melhor distribuída.

Nosso objetivo é que o pediatra tenha e mais ampla formação, podendo resolver a maioria dos problemas da saúde infanto-juvenil das várias regiões do País, ficando as questões realmente mais complexas para as áreas de atuação. O cerne da proposta é o aumento da qualificação profissional no acompanhamento da criança e do adolescente saudáveis, dos que têm problemas prevalentes na faixa etária e também dos que sofrem de doenças raras. Com tudo isso, certamente o trabalho do pediatra será mais valorizado e crianças e adolescentes ganharão melhor atendimento e qualidade de vida. Vários serviços já começam a oferecer o novo programa em 2014. Os demais terão dois anos para se adaptarem. Que venham cada vez mais e melhores mudanças! Nossos pacientes merecem.